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Pão Gostoso da vovó Neusa

Tem o Proust com as suas madeleines. Eu tenho certeza de que já conferi a alguma coisa o status de minha madeleine. E aí, diante disso, para manter a consistência, acho que o mais importante é estabelecer que não há e nem pode haver apenas uma madeleine. Talvez as madeleines sejam circunstanciais. A cada recordação (onde aplicável, claro) você poderia ter uma madeleine, e assim ter várias. Pois este pão é uma das minhas muitas madeleines.

Meus avós moraram em pelo menos 3 casas que eu conheci. A mais importante, digamos, foi a primeira. Uma casa enorme em Maringá num lugar que se chama “Zona 04”, que era perto de um bosque (chamado “Bosque 2”). A casa tinha um quintal enorme com várias árvores frutíferas, sendo que a nossa favorita era uma mangueira imponente que ficava bem no meio do quintal e que era capaz de aninhar bem umas 6 ou 7 crianças. A rua se chamava Joaquim Nabuco e era linda. Aquelas árvores imensas fazendo um corredor magnífico de sombra, como ocorre nos bairros mais antigos da cidade. E era larga, com largas calçadas, como eram as ruas mais antigas. E tranquila e imensa. Para você ter uma ideia, nós nos juntávamos em umas, sei lá, 15 crianças e adolescentes e brincávamos de esconde-esconde de bicicleta. Valia se esconder por uns 2 quarteirões anexos. E também brincávamos de esconde-esconde à noite e, para você ter ideia de como era o negócio, teve uma vez que eu salvei o mundo de forma épica. O pique era no meio da quadra, no muro da casa da minha avó. Eu estava escondido na esquina e era o último (de modo que tinha a prerrogativa de salvar o mundo). Como só faltava eu, a pessoa com quem estava (não tem objeto direito para este verbo no esconde-esconde) ficava guardando-caixão, isto é, hesitava em sair de perto do pique. Quase não havia carros estacionados na rua (porque já era tarde da noite) e diante de mim, havia um muro branco de uma casa enorme, que devia ter bem uns 150 metros de comprimento. Eu notei que a iluminação da rua projetava grossas sombras das árvores no muro, como se fosse a sombra de um aqueduto (embora eu não soubesse o que era um aqueduto), e que, por causa do contraste (eu também não tinha contraste no meu vocabulário da época, mas era esse o conceito envolvido), eu poderia me ocultar nas sombras, ainda que não houvesse nada entre eu e a menina que devia me pegar. Pois foi o que eu fiz. E assim, me aproximei e cheguei a ficar quase de frente para o pique do outro lado da rua, atrás de uma árvore. Algumas pessoas me viram enquanto eu me esgueirava pelas sombras junto ao muro, ficaram excitadas, mas não me deduraram. A menina se afastou um pouco do pique, instada pelos protestos dos outros de que ela guardava-caixão, e então eu consegui atravessar a rua, correr mais do que ela e salvar a todos.

Pois bem. Era ali, naquela casa, onde minha vó fazia este pão e ele saía com muita frequência. Depois que se mudou para a segunda casa, ela ainda fazia, segundo minha mãe, mas com menos frequência e depois parou. De modo que eu não me lembro quando eu também parei de comê-lo, mas faz muito tempo. Recentemente, comecei a pedir para minha mãe encontrar a receita. Minha avó, claro, se lembrava do pão, mas fazia meio de cabeça e não tinha a receita precisa para passar. Ela então emprestou para minha mãe seus livros de receitas e no início de Abril, eu tive acesso a eles. Depois de alguma investigação, encontramos uma receita sublinhada num livro bem curioso (uma publicação que tinha, em todas as páginas, breves anúncios de comerciantes de Maringá, completamente aleatórios e engraçados). A receita se chamava Pão Gostoso. Chegamos à conclusão de que só podia ser esse. Fiz um teste lá mesmo na casa da minha mãe e acertei na mosca! Agora eu já sabia fazer o Pão Gostoso da vovó Neusa, digno da categoria das madeleines, o qual compartilho com vocês.

Ingredientes
(A receita é grande e dá para duas formas de pão.)

500 mL de leite morno
5 colheres de açúcar mascavo (no original é açúcar normal)
2 colheres de sopa de fermento biológico seco
3 ovos
1 xícara de óleo
2 1/2 colheres de chá de sal
1/2 xícara de farelo de trigo (adição minha)
1 xícara de farinha de centeio (adição minha; opcional; pode ser qualquer farinha dessas diferentes ou simplesmente mais farinha de trigo)
Aproximadamente 6 xícaras de farinha de trigo, mas pode ser mais

  1. Numa vasilha grande coloque o leite, o açúcar e o fermento e misture bem. Deixe descansando um pouco até o fermente ativar (isto é, fazer uma espuma, tipo de cerveja).
  2. Coloque os ovos, depois o azeite, o sal, o farelo de trigo e a farinha de centeio e misture tudo com uma colher de pau.
  3. Agora coloque umas 3 xícaras de farinha de trigo e misture bem. Vá adicionando farinha de trigo aos poucos, de meia xícara em meia xícara, sempre misturando bem. Vai chegar um ponto em que a massa vai estar bem pesada. Agora você começa a sovar com a mão e vai adicionando farinha até que a massa pare de grudar na sua mão. Ela tem que ficar bem macia.
  4. Faça uma bolota e deixe a massa descansar dentro da vasilha (coberta com um pano) até ela dobrar de tamanho. Deve levar uns 20 minutos.
  5. Ligue o forno.
  6. Unte duas formas de pão com óleo e farinha, separe a passa em duas, faça uma espécie de bigatão com a mão (digo bigatão – uma espécie de lagarta – porque é para ficar irregular) e coloque-os nas formas. Deixe descansar por outros 20 minutos.
  7. Coloque no forno e asse em fogo médio (não sei quantos graus; a receita dizia baixo, mas vá ajustando ao seu forno) até a massa formar uma casca escura. Na receita tinha uma etapa em que você passava um pouco de manteiga sobre o pão e devolvia para o forno para dourar um pouco mais, mas eu acho isso desnecessário e também não sei se minha vó fazia isso.

O resultado será um pão super macio, quase um bolo, mas com a casca firme. Experimente ele bem quentinho com um pouco de manteiga para ter uma experiência transcendental.

PãesReceitas

GuGomes • 09/05/2015


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Comments

  1. tio beto 10/05/2015 - 11:43 Reply

    Lembro deste pao, lembro deste pe de manga, lembro desta casa, lembro desta rua, lembro da turma, lembro das peladas nesta rua esburacada as vezes.
    Lembrancas muito boas…..

    • GuGomes 10/05/2015 - 22:36 Reply

      Faz o pão, tio Beto!

  2. Sandra 21/08/2015 - 16:15 Reply

    Chorei!!!! Lembro dessa casa!

    • GuGomes 22/08/2015 - 23:49 Reply

      🙂

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