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Carne de sol de caju

Tudo começa com a impressionante safra de caju que deu na chácara onde vivem meus pais em Maringá-PR. Eu digo safra por causa da quantidade; na verdade, veio tudo de um pé só. Mas a abundância é impressionante. Eu não podia imaginar que um único cajueiro desse tanta fruta assim. Chega eu fiquei mais aliviado porque eu sempre me incomodava em ver aquele mundo de castanhas para vender e imaginando que os pobres plantadores de caju do nordeste brasileiro deviam ficar sem comer nenhuma castanha. Não é bem assim. Um único cajueiro pode dar centenas de caju por ano. Aliás, estivemos em Jericoacoara-CE essa semana e acho que tem caju para saciar a fome de grande parte da raça humana por castanhas; ou não – a depender da fome.

Mas enfim, chegamos em Maringá para passar o Réveillon, como teoricamente dizem os franceses (mas eu nunca conversei com um nativo a respeito desse nome). Chegando lá nos deparamos com uma infinidade de cajus. Por causa da seca que teve esse ano, tava dando caju na hora errada e como nunca tinha dado até então. Eles já tinham polpa congelada, já tinham feito caju com pinga (bom hein) e queimado castanhas – esse, aliás, é um espetáculo a parte; vocês não imaginam o potencial para armas químicas que nós temos no Brasil; é só questão de vontade política, como tudo nesse país.

O fato é que ainda tinha muito caju e a gente precisava dar vazão para eles. Fizemos duas receitas. Essa é a primeira, a segunda é um doce de caju – aguardem. Essa receita foi meu pai quem encontrou na internet. O original tá nesse vídeo aqui. É da Mara Salles, chef do restaurante Tordesilhas em São Paulo. (Eu nunca fui, minha mulher também não, minha filha idem (não tenho filha), mas dizem que é muito bom.) Para ser bem direto, a ideia é transformar o caju num bife. Você que já comeu caju sabe que ele tem um aspecto meio carnudo; e quem não comeu, acredite no Alceu Valença (lembra da morena tropicana?). Pois bem, o que a Mara inventou foi um jeito de salgar o caju, como se fosse carne de sol e depois você dá uma fritadinha nele com manteiga de garrafa, como se fosse bife.

Nossos ingredientes foram:

– um monte de cajus (quantos você achar que você come: dois cajus valem por um bifinho)
sal pra burro a depender da quantidade de caju; tenha uma fonte virtualmente infinita por perto que você vai se dar bem
manteiga de garrafa
óleo (de fritar)

Vou escrever o processo aqui de forma resumida. Para uma explicação mais visual veja o vídeo. Mas é tudo muito fácil. Primeiro você tem que fazer uns cortes (quatro) longitudinais no caju, sem atravessar para o outro lado (transforme cada um deles numa carambola). Depois você esmaga os cajus sem destruí-los. A ideia é tirar boa parte do suco já nessa etapa (aproveite o suco). Em seguida você abre com cuidado e salga os cortes com as mãos. Não precisa exagerar nem economizar. Espalha o sal com os dedos que tá bom. Daí você deixa descansar de um dia para o outro na geladeira. No dia seguinte, você vai dessalgá-lo (coloque de molho na água e vá trocando a água de vez em quando durante 24 horas). É como dessalgar bacalhau – você não quer tirar todo o sal, mas quer tirar a maioria (prove um pedacinho de vez em quando para escolher o ponto). Agora esmague seus cajus novamente e você está pronto para ir à panela.

Cajus esmagados.

Cajus esmagados.

 

Salgando o caju.

Salgando o caju.

Farofinha de dendê para acompanhar a carne de sol de caju.

Farofinha de dendê para acompanhar a carne de sol de caju.

Farofinha de dendê para acompanhar a carne de sol de caju. Você que já viu outras dicas sobre fritura por aqui já sabe porque eu pus o óleo na lista de ingredientes. Misture um pouco de óleo com a manteiga para a manteiga não queimar. Não precisa ser muito (de nenhum dos dois). Frite os cajus até ficarem com algumas crostinhas marrons. Se você tiver muito caju, você pode precisar repor a manteiga de vez em quando.

Como dá pra ver na foto, nós deixamos alguns cajus com a castanha. Atenção: não é pra comer a castanha. Ela queima! A Mara tem uma sugestão sobre o que fazer com elas, que você pode testar; a gente não fez.

A gente também fez uma farofinha de dendê, como sugeriu a Mara. A nossa teve, além de farinha de madioca e azeite de dendê, manteiga de garrafa, castanhas de caju, cebola e cebolinha. Farofa é tranquilo, né gente? Refoga o que tiver que refogar, coloca a farinha, acerta o azeite/manteiga e fica mexendo até dar uma tostadinha. A cebolinha é por último.

HortaReceitasViagens

GuGomes • 11/01/2013


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Comments

  1. Jairo 13/01/2013 - 00:47 Reply

    Parece saborosa! Há algum tempo, a Embrapa desenvolveu uma tecnologia parecida, para aproveitar a enorme sobra de frutos de caju, decorrente do aproveitamento econômico único da castanha. Como esta tal carne de caju tem um bom valor nutritivo, houve uma sugestão para ser utilizada em merendas escolares no Nordeste. Não sei se está sendo utilizada. Jairo

  2. valentina 18/06/2013 - 09:01 Reply

    Achei tão bacana esta postagem. Infelizmente nos meus passeios ao Brasil – digo passeio pois minhas ferias sao so de 2 semanas, nao tenho me encontrado em com uma boa safra de caju, mas vou já passar para uns primos que moram lá pros lados do Ceará e de repente se animam. E me contam da sua aventura.

    • gugomes 20/06/2013 - 23:19 Reply

      E vê se você conta a aventura deles pra gente também!

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